
Não adianta, ou é ingrato e escusado, perder-se grande tempo a discutir-se a teoria da arqueologia, o papel do arqueólogo, a visão do arqueólogo, quando na realidade o meio envolvente condiciona o mesmo a ser algo mais que a sua própria essência e por vezes contorcer-se e revezar-se para ser algo para o qual não foi preparado.
A minha visita de hoje a Foz Côa para visitar a escavação de emergência do Fariseu, foi uma autêntico estalo de luva branca que me fez acordar para aquilo que realmente é a arqueologia no nosso país (falo no nosso país pois nada sei do que se passa além fronteiras).
Acima de tudo, ser-se arqueólogo cá, é ser-se político e negociador. É ter-se amor à causa e por vezes sacrificar-mo-nos a nós e a outros para lutar por algo cujas entidades responsáveis grande parte das vezes, quando realmente importa, ignoram e/ou descredibilizam.
É vergonhoso constatar a realidade do Côa. A falta de apoios e de interesse, as burocracias evitáveis... enfim, todo um leque de dificuldades levantadas que decerto irão (espero aqui estar muito errado) levar o Côa cair no esquecimento e no marasmo total, tal e qual como a actual Vila Nova de Foz Côa se encontra.
Ao ver a forma como os arqueólogos escavavam no Fariseu, já não engulo a desculpa da falta de profissionalismo e rigor dos arqueólogos. Aqui não se trata de mau estudo do local, muito pelo contrário... existe um grande estudo exaustivo. O problema é quando as pernas são constantemente cortadas quando se quer levar uma causa adiante e cai em mãos obsoletas. Não querendo entrar em teorias da conspiração que nada de positivo trazem a discussões sérias, acredito que existe toda uma tendência prejurativa que leva o Côa a perder importância. Para quem ainda não ouviu a notícia, um dos casos mais sérios e vergonhosos é o facto da própria UNESCO ameaçar retirar o título de Património da Humanidade ao local.
E é perante estes factos que volto a repetir o que foi dito acima. Ser-se arqueólogo hoje é mais que toda a poética já discutida em artigos anteriores. É principalmente ter-se o sangue frio e saber-se negociar e contornar obstáculos para resolver problemas e enigmas, não de um passado antigo mas de um presente muito real e muito concreto.
4 comentários:
Na prática, Gustavo, ser-se Arqueológo hoje é apenas ser-se Humano...
Se ser-se arqueólogo é ser-se humano... a sociedade (portuguesa) em que vives enquanto arqueólogo/humano é ela muito pouco humana...?! Tendo em conta o quanto te ignora, descredibiliza, mal trata, inutiliza, etc...!
Mauro gostava que me clarificasses a mente... mas quem prometeu uma Vila Nova de Foz Côa??? Quem prometeu desenvolvimento turístico??? Quem bloqueou [e bem] um projecto que na mente das pessoas so circulam valores monetários??? Ou seja, na prática ser arqueólogo é também ser-se humano pois levamos sempre com tudo e todos em cima, pelo que somos ainda uma classe sem classe e sem consciência... Agora pergunto-te quantos CÔAS existem pelo país fora e quantos CÔAS são destruídos, sem conhecimento ou por vezes com conhecimento total??? Daí que o problema não é só social é também nosso...
Todos prometeram... nenhuns cumpriram... Uns por não o quererem fazer outros por serem impedidos de o fazer
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