Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Indignação

Estava renitente em relação a qual seria o meu primeiro post nesta publicação “nossa” que muito me apraz. Nunca me apeteceu escrever algo pela mera participação, ou vontade de falar. Não me sentia com o dom da palavra, nem tinha uma motivação que para mim fosse realmente licita. Apesar de tudo sempre fui um leitor assíduo, fazendo já parte da minha rotina diária verificar se há “algo” novo neste nosso “ponto de brainstorming”.
Recentemente, tenho vindo a sentir-me um pouco desolado - creio que seja sindroma em geral de quem é aluno finalista da licenciatura de Arqueologia. Desolado por várias questões, mas principalmente pela falta de consideração que se tem por esta área no nosso pais. É muito ingrato pensar num futuro em que a minha actividade, que considero nobre e importante, não é valorizada por uma grande maioria dos meus conterrâneos. Até “Doutores & Engenheiros”, pessoas com formação e ditas cultas descartam esta actividade. Não pretendo com isto ter um discurso de vitima, mas sim uma espécie de indignação. Uma que seja "pacifica". Um pouco desacreditado na “mudança” e vencido pelo marasmo nacional que tão bem nos caracteriza, gostava que as pessoas se indignassem mais. Como muitos de vós sabem , tive recentemente a oportunidade de experimentar Arqueologia (e tudo o que com esta se envolve) em alguns países europeus. Constatei que em países ditos pobres, alguns mesmo ditos "ignorantes", se preza tal actividade. Que o dinheiro em alguns deles continua a não ser muito, mas a vontade de escavar, investigar, preservar e “contar a história” é-lhes valorizada. Em países do antigo bloco do leste, como a Polónia, a arqueologia tem um papel fundamental, no sentido em que lhes devolve o “direito à terra”, e lhes “restaura” tradição e cultura, assim como um sentido de identidade nacional. Foi muito agradável constatar que após apenas alguns anos de fundos da União Europeia, tanto havia sido feito pelo património destes sítios. Conclui que seria esse o único financiamento possível. Enganei-me. Mesmo antes da sua adesão, no intervalo entre o antigo Bloco Soviético e a adesão à UE, estas pessoas haviam já investido muita da sua disponibilidade e dinheiro na Arqueologia e no seu património.
Quando regressei, e durante estes últimos meses, tive que, de novo, me habituar (conformar?) com a nossa realidade, e muito me tem custado. Tudo isto, que vos escrevo e falo, é o meu “contexto”, a minha circunstância. Recentemente chegou-me, por mão amiga, uma participação no Archport (o fórum de Arqueologia mais divulgado em Portugal), de alguém que, por motivo que procuro entender, mostra o seu desdém para com os profissionais da minha área. Achei por bem publicar tais palavras, embora não minhas, incorrendo no risco de receber "retaliações" por tal. Na minha perspectiva, é um bom exemplo do desrespeito que se tem pela profissão que em breve praticarei. É uma pequena demonstração da opinião que tantos portugueses fazem da Arqueologia e seu património. Gostaria realmente de entender a intenção ou motivação de certas pessoas em publicar ou afirmar tamanhas barbaridades. Não quero com este post começar, ou fomentar, mais uma “novela” em torno da Arqueologia, pois é algo que já “polui” demasiado esta nobre actividade. Nem vou aqui encetar uma discussão, ou (desculpem o Português) “peixeirada”. Reservo-me ao meu direito de apenas responder a comentários que realmente considere construtivos, independentemente da opinião. Tenho apenas como intenção, e desejo deixar tal bem claro, demonstrar um exemplo do que é a ideia que muitos fazem do que “nós construímos”, ou vamos construindo... Abaixo segue então a referida participação no Archport da autoria do Senhor(a) Silva. Espero que me perdoe por usar as suas palavras sem autorização do mesmo(a).

“Estive a ver o plano de estudos da licenciatura em história (variante de arqueologia) da Universidade de Coimbra e concluí que matemática nem vê-la. Muitos tiveram o último contacto sério com a matemática no 9ºano dado que métodos quantitativos é uma aberração à matemática! Sem querer ser hipócrita qualquer pessoa que saiba ler e escrever consegue com maior ou menor esforço concluir um curso de arqueologia, enquanto que para concluir um curso de engenharia, física, matemática, arquitectura etc é preciso justamente saber matemática. Aliás é bem visivel que quem tem formação na área da matemática dificilmente está desempregado dada a valia que se dá a este tipo de conhecimento. Qualquer um consegue ser arqueólogo, agora o que me apetece propôr é que qualquer um com formação em arqueologia tente ser por exemplo engenheiro. Não é impossível, mas...
A ideia do arqueólogo conseguir ser uma classe corporativista procurando a cisão com as outras áreas do conhecimentos é das coisas mais mórbidas que por aqui li ultimamente, simplesmente porque é ímpossivel uma vez que o tradicional arqueólogo
tem uma formação deficiente em todas as áreas científicas à excepção da história. Mais uma vez repito que para saber de história basta saber ler, para saber escavar basta saber ver. Qualquer técnico de arqueologia não licenciado é sabido que escava e desenha tão bem como um arqueólogo.

Despeço-me com amizade
Silva”

Sem querer acrescentar mais, pelo menos para já, incentivo-vos a indignarem-se. Não numa estúpida crise de adolescente, ou rebeldia desmedida e não calculada, mas sim de uma maneira construtiva e inteligente. Sem mais de momento, aguardo a vossa opinião.

5 comentários:

Mauro Correia disse...

Caro André, antes de mais quero dizer-te: finalmente a tua 1ª entrada!

Quanto ao desrespeito de que é alvo a Arqueologia neste país (bem como a generalidade das ciências sociais e arte neste país, este é inegável - e uma vergonha para para o país!

A arqueologia vive (ou se calhar sempre viveu)uma situação de instabilidade, falta de identidade, incapacidade de se impor e de mostrar a sua importância para qualquer sociedade humana que se quer saudável e activa.
Porque acontece tal absurdo em Portugal? Os motivos serão vários, alguns foram por ti aqui tocados... outros irão se-lo no espaço do Arkstratum...
Em relação à Sónia, não merece que lhe demos importancia, bem como ao lavar de "roupa suja" e lutas viscerais de comadres que acontecem constantemente no Archport (espaço que tantas vezes me envergonha enquanto futuro arqueólogo, e que muito deve envergonhar membros desta classe bem como pessoas que entendem a importancia da actividade arqueológica!)

André Rolo disse...

Mas quem é a Sónia? Talvez me ajude a entender o porque de tal comentário... Falta-me contexto... ;)

Mauro Correia disse...

Vamos tomar aqui a "Sónia" (esqueci as aspas no comentário anterior) e a sua intervenção no Archport como uma espécie de "figura tipo" representativa da sociedade portuguesa, e nunca como ser humano individual, pois neste espaço não se pretendem ataques de nível pessoal (deixemos isso para outros espaços cibernéticos!), pretende-se sim discutir Arqueologia de modo serio, leal e ponderado tentando com isso contribuir humildemente para melhora-la e tira-la do marasmo e estado vegetativa em que se encontra...
(com este comentário julgo estar a abarcar a posição de todos os membros deste blogue, caso assim não seja agradeço que estes se manifestem)

Sem mais, abraços...

Mauro Correia disse...

Silva, sorry

ArkS disse...

Caro André, desde já saluto a tua primeira intervenção.
Gostaria de mencionar-te que lamentavelmente a Arqueologia neste país não tem estado no seu melhor, seja pela consciência de classe ou a sua ausência... Seja pelo profissional liberal a recibo verde que tudo reclama de direito... Seja na própria orgânica empresarial de se "fazer Arqueologia"...
Contudo, deveremos olhar estes momentos in tenebris e tomá-los como nossos, reflectindo-os, a ponto de encontrarmos uma solução...
Sem nunca esquecendo que Arqueologia não é matemática, engenharia, geografia, outra disciplina... Mas é mais que isso, uma vez que para "construir ruínas" são necessários diversos saberes, seja na interpretação do espaço, na construção histórica, até mesmo na simples fórmula de se abrir ao que os outros chamam de buraco"...
Há que reflectir sobre nós mesmos...