Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Os pequenos satélites do universo optimista


Foi-me pedido que propusesse um tema de discussão neste espaço. Depois de muito pensar nada me saiu naturalmente pois, no que toca à arqueologia, há muito que perdi o interesse de discutir o que quer que seja sobre esta área, a menos que valha mesmo a pena. Para quem me conhece, sabe que para mim a arqueologia não é só uma área de estudo ou de trabalho, mas uma forma de pensar e observar o mundo, construindo ou desmontando a realidade consoante a vejo.

E se por um lado partilho do sentimento tanto do André como de muitos outros bons arqueólogos ou aspirantes a arqueólogos, por outro já evito focar-me na indignação/frustração tão comum a todos, quando assisto/leio/constato determinadas atitudes ou formas de pensar e fazer a arqueologia por parte, tanto da velha como da nova guarda, de arqueólogos.

Isto, porque no meio do mofo que insiste em não sair das botas da arqueologia ainda vai correndo uma corrente de ar fresca, soprada por arqueólogos/estudantes de arqueologia de todas as idades, que se distanciam das pseudo-discussões e teorias que tanto invadem tanto locais terrenos como virtuais e que no fundo são apenas úteis para quem tem necessidade de se afirmar perante um público interessado (ou não).

Ou seja, a dita Arqueologia tal e qual nós a idealizamos não é uma utopia. Muita boa gente ainda a pratica, com a simples diferença de que normalmente quem a realiza está longe dos focos dos media, permanecendo discretamente por trás do palco mas mesmo assim dando muitos bons espectáculos.
E é a pensar nesses profissionais e estudantes, que muitas vezes dão autênticas chapadas de luva branca aos ditos sábios e mestres da área, que eu ainda hoje consigo sorrir com optimismo ao pensar na mesma.

Mas como era suposto isto ser o arranque de um tema, coloco abaixo um provérbio português que sumariza o que foi referido neste tópico e que (na minha opinião) traduz muito bem aquilo que se passa com frequência na arqueologia portuguesa.
Mesmo que não comentem, não deixem de ponderar nesta realidade:

"quem não sabe falar, não sabe calar-se"

4 comentários:

ArkS disse...

Na realidade, seja na (des)construção virtual ou na construção de ruínas... Aquilo que verdadeiramente interessa é reflectir sobre o que nós somos (fazemos)e o que fomos (fizemos)afim de pensarmos na pequena luz do que seremos... Esse, em meu entender, é e será sempre o termo da Arqueologia.
Porém gostaria de saber qual a forma como idealizas a tua "dita Arqueologia"?

Gustavo Santos disse...

Não a idealizo. Vejo-a em profissionais e arqueólogos. A dita Arqueologia sem rodeios nem floreados, concreta e não abstracta. Em que a teoria não extrapola os dados, nem os dados jogam com teorias pré-ponderadas. Fundamentalmente uma arqueologia aberta à crítica e à mudança.

Gustavo Santos disse...

Para que não haja confusão, no comentário acima quando digo teoria queria dizer *interpretação/interpretações.

Mauro disse...

Acho que tal como afirmas, o trabalho de "bastidores" - sem que se almeje apenas e só a alguma espécie de reconhecimento e "publico", descorando muitas das vezes a qualidade e capacidade de trabalho enveredando pelo caminho do facilitismo e do imediato - é aquele que verdadeiramente importa, aquele que se deve louvar e seguir. No entanto, acho que mesmo os "actores de bastidores" devem procurar "dar-se a conhecer" ao tecido social na procura da legitimação da actividade e conhecimento que produzem, afinal a meu ver só assim se "justifica" perante aquilo para o qual é seu dever produzir conhecimento (arqueológico), ou seja perante a sociedade local e/ou global em que esta inserido!

E se infelizmente "quem não sabe falar, não sabe calar-se" quem sabe e deveria falar - em prol da actividade - cala-se na maior parte das vezes, mantendo-se alheio no seu "trabalho" que no fim contribuiu apenas para o engrossar de "conhecimento" (de qualidade por certo) local (ou seja, de uma comunidade, nesta caso profissional restrita)senão meramente pessoal, nunca contribuindo para a o desenvolvimento da sociedade e da actividade que abraçou como "sua" (a Arqueologia).

Discutir é fundamental... o silencio equivale à morte ou no mínimo ao estagnar de toda e qualquer actividade...