Em resposta a uma proposta/desafio [demasiado duro, discutível e vasto] que me foi feita pelo Arks há umas semanas, escrever acerca da: Relação da Arqueologia com o Tempo e o Espaço e qual o valor e abrangência de cada uma das premissas…
Cá vai um texto em género de esquisso [sem nada de transcendente ou novo]... apenas para ver se mais alguém se pronuncia acerca destas relações e se um dialogo acontece…
Cá vai um texto em género de esquisso [sem nada de transcendente ou novo]... apenas para ver se mais alguém se pronuncia acerca destas relações e se um dialogo acontece…
Arqueologia: do Gr. archaíos, antigo + lógos, tratado
s. f., ciência que tem por objecto o estudo dos vestígios das antigas civilizações;
ciência da antiguidade.
Tempo: do Lat. tempus
s. m., duração limitada, por oposição à ideia de eternidade;
período;
época;
sucessão de anos, dias, horas, momentos, que envolve, para o homem, a noção de presente, passado e futuro;
meio indefinido onde se desenrolam, irreversivelmente, as existências na sua mutação, os acontecimentos e os fenómenos na sua sucessão;
certo período determinado em que decorre um facto ou vive uma personagem;
oportunidade;
ensejo;
estação ou ocasião própria;
prazo;
duração;
estado atmosférico;
Mús., cada uma das partes completas de uma peça musical, em que o andamento muda;
duração de cada parte do compasso;
Gram., flexão indicativa do momento a que se refere o estado ou a acção dos verbos.
Espaço: do Lat. spatiu
s. m., extensão indefinida;
vácuo situado além da atmosfera da Terra, onde se encontram todos os corpos celestes do Universo;
área;
duração;
demora;
adiamento, prorrogação;
porção de tempo entre dois limites, prazo;
Mús., intervalo de uma linha a outra na pauta musical;
Arqueologia, tempo e espaço, são três conceitos cuja ambiguidade é cada vez mais evidente, mas cuja relação é inequívoca, e, sobretudo, Tempo e Espaço podem por si sós ser o objecto (ou objectivo?!) da prática arqueológica.
Assumindo então esta(s) relação(ões) como constantes e indissociáveis, isto é, que em última instância, ou mesmo única, a Arqueologia (ou Arqueologias?!) é tempo-espaço / espaço-tempo, que é então a relação de grandeza e/ou de preponderância de um e de outro na prática e na vivência desta ciência (social e humana, mas também física, química e numérica) multidisciplinar?
Comecemos então pela procura de definir, na medida do possível e mediante as limitações do autor desta reflexão, Tempo e Espaço na/da arqueologia e na concreta realização da mesma.
O Tempo da/na arqueologia pode, numa primeira impressão, ser definido como o tempo do estudo de passados mais ou menos longínquos, desde a Pré-história até ao passado recente… mas, isto é demasiado redutor e falacioso, pois o tempo arqueológico é também, e talvez sobretudo, o do Presente, aquele em que o estudo arqueológico tem lugar, aquele em que a leitura e interpretação das evidencias arqueológicas são realizadas pelo Arqueólogo (segundo as suas convicções, acções, princípios, objectivos, etc.) perante os seus pares e perante a sociedade presente, sendo portanto tempos e não tempo, em que um tempo passado é interpretado à luz de um tempo presente e, ainda, passível de ser reinterpretado num tempo futuro, isto porque em arqueologia há que ter a consciência que lidamos com verdades relativas e restritas ao(s) momento(s) da sua concepção.
Aconteceu no paragrafo anterior, com plena consciência por parte do autor de tal facto, que na tentativa de circunscrever o conceito de tempo arqueológico tenhamos caído num dos espaços da realidade da actividade arqueológica: o Arqueólogo!
Este é, incontornavelmente, um dos principais actores do(s) espaço(s) arqueológicos, mas não o único evidentemente, e nem seque o primeiro no tempo (na cronologia) espacial (físico) do acontecimento e do saber arqueológicos.
O primeiro espaço é, precisamente, o da acção acontecida (acção antropológica – humana) e dos registos materiais por esta acção (momento(s)) preservados (ruína/estruturas positivas e/ou negativas, fragmentos cerâmicos, líticos, osteológicos, etc). O segundo espaço é o da intervenção arqueológica (escavação), seja ela com carácter de emergência ou de investigação académica, onde através da exumação da materialidade que restou (sempre uma ínfima parte da que existiu, o que trunca realidades) e do registo (o mais cuidado e exaustivo possível – assim se espera pois a intervenção arqueológica é irreversível por natureza) momento em que o arqueólogo e a sua equipa, através do seu conhecimento e saberes (aqui conhecimento e saber são eles mesmos espaços mas de características metafísicas) começam a esboçar a (re)criação do espaço-tempo que havia sido o da materialidade e das evidencias antes da sua exumação, espaço-tempo este que ganha forma (se bem que sempre com consciência da sua relatividade) no espaço (-tempo) dos estudos de gabinete, nas análises e caracterização das evidencias…
Pode-se então concluir pelo que até aqui foi exposto que Tempo e Espaço são de valor e valência equivalente da/na prática arqueológica, não sendo também passíveis de estancar um do outro? Sou peremptório a afirmar que sim!
E no que à escala de ambos diz respeito, Espaço-Tempo arqueológicos serão de uma vastidão e amplitude tais capazes de abarcar no seio desta ciência tempo e espaços do(s) passado(s), do agora e do devir (que virá a tornar-se Presente e Passado)? Julgo que tal é uma combinação inconcebível (megalómana) e até potencialmente descredibilizadora para a Arqueologia, preferindo crer que o espaço-tempo / tempo-espaço do conhecimento arqueológico são limitados ao do seu Presente sócio-cultural e ao dos indivíduos intervenientes na (re)criação deste(s) saber(es), cuja factualidade, deve ser, como já anteriormente referido, assumida como relativa e restrita às convicções, moral, valores, técnicas, tecnologias e sociedade do presente (sublinhando e/ou retorquindo estas premissas e quesitos), e, esperando-se que seja capaz de a esta mesma sociedade oferecer algo trabalhando e contribuindo activamente para a sua melhoria a nível cultural social e mesmo económico, não se refugiando num discurso “caro” por debaixo de um chapéu de linguagem meramente elitista (cientifica?!) que a torne de tal modo fechada que deixa mesmo de ser ciência (social e humana) correndo o risco de tornar-se num placebo e num recreio (pseudo)intelectual, uma entidade morta e (ultra)passada no tempo e no espaço humanos…
Assumindo então esta(s) relação(ões) como constantes e indissociáveis, isto é, que em última instância, ou mesmo única, a Arqueologia (ou Arqueologias?!) é tempo-espaço / espaço-tempo, que é então a relação de grandeza e/ou de preponderância de um e de outro na prática e na vivência desta ciência (social e humana, mas também física, química e numérica) multidisciplinar?
Comecemos então pela procura de definir, na medida do possível e mediante as limitações do autor desta reflexão, Tempo e Espaço na/da arqueologia e na concreta realização da mesma.
O Tempo da/na arqueologia pode, numa primeira impressão, ser definido como o tempo do estudo de passados mais ou menos longínquos, desde a Pré-história até ao passado recente… mas, isto é demasiado redutor e falacioso, pois o tempo arqueológico é também, e talvez sobretudo, o do Presente, aquele em que o estudo arqueológico tem lugar, aquele em que a leitura e interpretação das evidencias arqueológicas são realizadas pelo Arqueólogo (segundo as suas convicções, acções, princípios, objectivos, etc.) perante os seus pares e perante a sociedade presente, sendo portanto tempos e não tempo, em que um tempo passado é interpretado à luz de um tempo presente e, ainda, passível de ser reinterpretado num tempo futuro, isto porque em arqueologia há que ter a consciência que lidamos com verdades relativas e restritas ao(s) momento(s) da sua concepção.
Aconteceu no paragrafo anterior, com plena consciência por parte do autor de tal facto, que na tentativa de circunscrever o conceito de tempo arqueológico tenhamos caído num dos espaços da realidade da actividade arqueológica: o Arqueólogo!
Este é, incontornavelmente, um dos principais actores do(s) espaço(s) arqueológicos, mas não o único evidentemente, e nem seque o primeiro no tempo (na cronologia) espacial (físico) do acontecimento e do saber arqueológicos.
O primeiro espaço é, precisamente, o da acção acontecida (acção antropológica – humana) e dos registos materiais por esta acção (momento(s)) preservados (ruína/estruturas positivas e/ou negativas, fragmentos cerâmicos, líticos, osteológicos, etc). O segundo espaço é o da intervenção arqueológica (escavação), seja ela com carácter de emergência ou de investigação académica, onde através da exumação da materialidade que restou (sempre uma ínfima parte da que existiu, o que trunca realidades) e do registo (o mais cuidado e exaustivo possível – assim se espera pois a intervenção arqueológica é irreversível por natureza) momento em que o arqueólogo e a sua equipa, através do seu conhecimento e saberes (aqui conhecimento e saber são eles mesmos espaços mas de características metafísicas) começam a esboçar a (re)criação do espaço-tempo que havia sido o da materialidade e das evidencias antes da sua exumação, espaço-tempo este que ganha forma (se bem que sempre com consciência da sua relatividade) no espaço (-tempo) dos estudos de gabinete, nas análises e caracterização das evidencias…
Pode-se então concluir pelo que até aqui foi exposto que Tempo e Espaço são de valor e valência equivalente da/na prática arqueológica, não sendo também passíveis de estancar um do outro? Sou peremptório a afirmar que sim!
E no que à escala de ambos diz respeito, Espaço-Tempo arqueológicos serão de uma vastidão e amplitude tais capazes de abarcar no seio desta ciência tempo e espaços do(s) passado(s), do agora e do devir (que virá a tornar-se Presente e Passado)? Julgo que tal é uma combinação inconcebível (megalómana) e até potencialmente descredibilizadora para a Arqueologia, preferindo crer que o espaço-tempo / tempo-espaço do conhecimento arqueológico são limitados ao do seu Presente sócio-cultural e ao dos indivíduos intervenientes na (re)criação deste(s) saber(es), cuja factualidade, deve ser, como já anteriormente referido, assumida como relativa e restrita às convicções, moral, valores, técnicas, tecnologias e sociedade do presente (sublinhando e/ou retorquindo estas premissas e quesitos), e, esperando-se que seja capaz de a esta mesma sociedade oferecer algo trabalhando e contribuindo activamente para a sua melhoria a nível cultural social e mesmo económico, não se refugiando num discurso “caro” por debaixo de um chapéu de linguagem meramente elitista (cientifica?!) que a torne de tal modo fechada que deixa mesmo de ser ciência (social e humana) correndo o risco de tornar-se num placebo e num recreio (pseudo)intelectual, uma entidade morta e (ultra)passada no tempo e no espaço humanos…
"(...)
quantos sou?
(...)" F. Pessoa
(...)" F. Pessoa
Texto por: Mauro Correia; Cuba, Alentejo, 14 de Fevereiro de 2009
definições de dicionário em: http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx
definições de dicionário em: http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx
3 comentários:
Bem exposto caro Mauro! Acerca desta temática recordo-me sempre de uma analogía que penso demonstrar bem o "busílis" da questão... Por cálculos elaborados, equações que me ultrapassam, um físico pode te revelar o teu peso em Marte, ou Mercúrio, embora seja improvável a tua sobrevivencia em tais sítios. De qualquer modo será, à partida, uma informação de bastante rigor com certeza, mas, infelizmente, só a vais confirmar no dia em que "aterrares" em Marte. Ora na Arqueologia, nós nunca vamos
"aterrar no Passado", como é óbvio. E dada essa impossibilidade, muito se pode dizer sobre uma única realidade passada. Deixa-me um pouco amargurado esta falta de confirmação indesmentível, "but then again" ninguém nos prometeu o oposto. E é nesta permissa que faço os meus juizos: desconfio sempre,à partida, dos que tenham "certezas absolutas" e "fórmulas de Deus" sobre tal temática. É fácil apanhá-los. Não me parece que te seja difícil dar com eles. Não lhes facilites a vida.
Abraço.
André Rolo
Então Grande Mauro Caires...não se escreve mais nada?
O teu "nick" até me deu arrepios "Carlinhos" :P
Este blogue está praticamente desactivado... parece que Pias nos espera.
Abraço
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